RPG é arte? Parte 1

14 abr, 2010 37 comentários por Ricardo Peraça

Neste artigo, buscarei responder à seguinte pergunta: o RPG é uma ?

Primeiramente, observemos a questão do ponto de vista convencional: o RPG deveria ser considerado, por convenção, uma ? A resposta é sim, e posso justificá-la facilmente. As artes têm sido classificadas de diferentes formas ao longo da história, e em alguns momentos, inclusive, encontravam-se entre as artes algumas atividades que hoje consideramos ciências. Entre os antigos gregos, por exemplo, elas eram em número de nove, e cada uma era representada por uma musa: Calíope era a musa da poesia épica, Clio a da história, Erato a da poesia lírica, Euterpe a da música, Melpômene a da tragédia, Polímnia a da poesia ou música sacra, Terpsícore a da dança, Tália a da comédia e Urânia a da astronomia. Já filósofo alemão Hegel, no século XIX, classifica as artes em cinco: arquitetura, escultura, pintura, música e poesia. No ano de 1911, o crítico de cinema italiano Riccioto Canudo escreve o “Manifesto das Sete Artes”, com o qual se torna célebre a expressão “sétima ”, dizendo respeito ao cinema. As outras seis artes seriam as mesmas das quais fala Hegel, mais a dança. Depois desse manifesto, outras artes foram adicionadas, embora não haja muito consenso em relação à ordem. Estas artes seriam a fotografia, a história em quadrinhos, a televisão (uma adição bastante controversa), o videogame e a digital. Seria justo e razoável, portanto, se o RPG também fosse considerado uma .


para o jogo Final Fantasy X: até videogame é !


 

O objetivo deste artigo é, porém, fazer uma investigação filosófica a respeito do RPG enquanto . O leitor desavisado não precisa ficar assustado: tentarei me utilizar de uma linguagem acessível a todos. O filósofo no qual basearei minhas reflexões sobre será o alemão F. W. Nietzsche (para aqueles que conhecem seu trabalho, gostaria de ressaltar que me focarei na segunda e terceira fases de seu pensamento, ignorando a primeira fase que, embora trate largamente de estética, foi por ele próprio renegada). No que diz respeito ao RPG, muito de meus pensamentos se guiam pelas reflexões de Christopher Kubasik na sua série de quatro artigos denominada Interactive Toolkit (cujas primeira e segunda partes foram traduzidas pelo Shido Vicious do blog .20). Por se tratar de uma investigação conceitual, tratemos, primeiramente, de definir claramente os termos “RPG” e “”.

 

O que é RPG?

O que significa a sigla RPG todos aqui devem estar cansados de saber. Mas procuremos por uma definição clara do termo. Para tanto, recorramos ao consenso entre os rpgistas: o RPG é um jogo, no qual os jogadores interpretam personagens, protagonistas de uma história – sendo que um dos jogadores, comumente chamado de mestre ou narrador, interpreta os personagens coadjuvantes, além de descrever o cenário e os acontecimentos – mas apesar de ser um jogo e possuir regras, ninguém ganha uma partida de RPG, e o único objetivo é ter diversão contando uma história em grupo. Se eu estiver certo quanto a esse ser um consenso entre a maioria dos rpgistas, então você também já deve saber de tudo isso. Mas eu terei que discordar um pouco dessa definição.

Como a própria definição diz, o RPG é um jogo, mas ao contrário da maioria – senão de todos os jogos – não há vencedores ou perdedores, ao menos não no sentido literal da palavra. Já eu acredito que o RPG não pode ser chamado simplesmente de um jogo. A ausência de vencedores ou perdedores não é a única diferença entre os RPGs e os outros jogos. Ludwig Wittgenstein, filósofo alemão do século XX, utiliza-se de uma analogia com os jogos para explicar como funciona a linguagem. Para ele, a principal característica de um jogo, e também do que ele chama um “jogo de linguagem” é a existência de regras. E estas regras nunca podem ser quebradas, ou não se está jogando o jogo corretamente. É claro que elas são dinâmicas, podendo ser modificadas de acordo com a necessidade, mas se não há regras, não há jogo. No RPG, há regras, mas estas podem (e muitas vezes devem) ser quebradas pelo mestre, a fim de que uma boa história seja contada. O mestre pode rolar dados atrás de um escudo e mentir sobre o resultado. Nenhum outro jogo, pelo menos que eu saiba, permite que um jogador trapaceie.

Alguém poderia argumentar: “Mas apenas o mestre, um jogador especial, pode roubar”. Sim, mas mesmo a existência de um único jogador como o mestre, com sua função tradicional, não é necessária para que haja uma sessão de RPG – se todos os jogadores pudessem roubar em prol da história, isso não necessariamente prejudicaria o andamento da sessão. A mestragem pode ser rotativa, ou o poder do mestre pode ser menor, ampliando a possibilidade dos jogadores criarem e modificarem a história, (em alguns RPGs, os jogadores podem incluir elementos narrativos na cena, como faz o mestre). De acordo com Kubasik (que chama o RPG de “diversão de história” e o mestre de “Intermediário”):

[...] na diversão de história, esta não pertence ao Intermediário. Ele não pode decidir qual será a trama e então conduzir os jogadores através dela como camundongos em um labirinto. Os Protagonistas determinam a direção da história quando criam sem personagens. [...] O que querem os personagens? Quais seus objetivos? A história é sobre a tentativa de atingir estes objetivos. O Intermediário cria obstáculos no percurso. (Interactive Toolkit, parte 2)

Não quero dizer, é claro, que RPG não é um jogo – apenas que esta não é a melhor classe conceitual na qual o RPG se encaixa. O RPG tem sim muitas características de um jogo, mas se aquilo que o define melhor é a interpretação em conjunto de uma história, então talvez ele esteja mais próximo da literatura ou do teatro do que dos jogos.

Definamos então o RPG da seguinte maneira: trata-se de um modo de criar e contar uma história, em grupo, em boa parte improvisada e oralmente, na qual cada participante interpreta um dos protagonistas. O RPG se utiliza de regras, como num jogo, de modo a manter a coerência e a verossimilhança na história (mas estas podem ser quebradas em prol da história), e há um participante especial que conduz a narração, agindo ora como antagonista, ora como narrador. Mas o fim, o objetivo do RPG, continua sendo apenas a diversão, e isso bastaria para que muitos não o considerassem uma , por não prover um “sentimento de contemplação estética” genuíno.

Na segunda parte deste artigo, tentaremos definir o conceito de “”, a fim de que possamos, na terceira parte, descobrir se o RPG é ou não uma .

 

Bibliografia

http://www.rpg.net/oracle/authors/chrisk.html

http://www.dot20.com.br/2009/10/12/matando-o-rpg-como-conhecemos-parte-1/

http://www.dot20.com.br/2009/12/13/matando-o-rpg-como-conhecemos-parte-2/

http://fgimello.free.fr/enseignements/metz/textes_theoriques/canudo.htm

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RPG

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37 comentários para “RPG é arte? Parte 1”

  1. Vinicius Zóio says:

    Estou bastante curioso com o artigo :) .

    Estou acabando meu curso de Artes e já discuti um bocado sobre o tema, mas não tanto quanto eu gostaria de ter discutido :) .

    Ricardo, no início do artigo você disse que videogame já foi encaixado dentro da definição de arte: posso saber que linha de pensamento você está usando para fazer essa afirmação? Sei que o campo artístico é um campo, no mínimo, fragmentado; e que a aceitação do videogame como arte pode não ser universal mas gostaria muito de saber quem você está usando como base para este pensamento :) .

    No mais, tendo passado 4 anos tentando encontar uma definição satisfatória para a arte e discutindo veementemente com diversos dos meus professores, estou ansioso para ver em qual definição de arte você chegará na segunda parte do seu artigo! ^^

  2. alvaro o bardo says:

    muito bom estou pensando em fazer meu mestrado em antropologia levando este tema( o rpg como um jogo, uma arte, e um resgate da história oral) em consideração se alguém poder me passar uam bibliografia que tenha haver com o assunto eu agradeceria !

  3. Ricardo Peraça says:

    Vinicius, não estou citando ninguém especificamente. Se você der procurar pelo manifeto das sete artes, encontrará referências à inclusão de outras artes posteriormente, e entre elas o videogame. Mas em nenhum lugar encontrei referências sobre quem o que organização faz isso. Mas há quem o faça, e o importante são os motivos: em alguns jogos eletrônicos há um enredo, há artes belíssimas. Acredito que as pessoas que consideram o videogame uma arte não citam o RPG apenas por desconhecimento ou por acreditar se tratar de um tipo de literatura. Meu argumento será o de que o RPG é uma arte em especial.

  4. Vinicius Zóio says:

    Entendo :) .

    Tb li uma ou outra fonte que declara videogame como arte, e eu pessoalmente partilho da mesma opinião, mas evidente que para debater o tema lá na faculdade preciso de “gente mais importante”, por mais ridículo que isso seja ¬¬. Só perguntei pq achei que você pudesse me ajudar nesse sentido :) .

    É uma discussão bacana, com muita coisa para ser levada em conta!

    No mais, estou esperando ansioso pelo seu segundo post e pode ter certeza que vou estar acompanhando você por esta série! ^^

  5. Colaboração no Paragons « Livre Roleplay says:

    [...] } Hoje foi postado no Paragons o primeiro post da minha série de três posts entitulada “RPG é Arte?”. Além disso, eu serei o [...]

  6. Roncabucho says:

    Cara que artigo 10! Nota 10!

  7. Squall says:

    Soberbo ! A redefinição conceitual de aspectos “alternativos”da arte se faz necessária.
    Parabéns.

  8. cochise says:

    O RPG é uma experiência do grupo não reproduzível. Lembra o conceito de performance que entrou em moda nos naos 70.  Um cenário ou aventura é meia obra que preccisa de um conjunto de pessoas realizando determinadas ações para se transformar em um algo completo.
    Essa interatividade é o que faz do RPG arte à frente da vanguarda.
    Só senti falta de um argumento n texto. A diferencciação entre arte e mídia, porque, veja bem… Literatura, música, escultura etc são mídias. Na músuca posso fazer a Sagração da Primavera e o Rebolation. Ambos são arte? Não se  pensarmos no “estado de contemplação” citado. Mas ambos estão na mesma mídia, a música.
    Para mim é claro que a arte é um subconjunto de artigos de determinada mídia.
    Sendo assim, concordo que alguns vvideogames como fallout sejam considerados arte e alguns RPGs como Gray Ranks (http://www.indiepressrevolution.com/xcart/product.php?productid=16333&cat=0&page=1) sejam artísticos (mas ainda não arte, uma vez que o objeto final é a sessão e apenas esta poderia ser verdaddeiramente classificada como arte ou não arte)

  9. Livia says:

    Gostei bastante. Isso me lembrou uma discussão que rolou com o Justin Achilli no twitter, que perguntou “If game design is an art, can _playing_ games be a form of artistic expression?”

    Eu perguntei “mesmo se for PacMan?” só para provocar, e a coisa até rendeu repostas legais.

    Interessante também a observação do Cochise.

  10. Ricardo Peraça says:

    Cara, na sua a´rea eu só conheço o Hizinga, autor de Homo Ludens.

  11. Ricardo Peraça says:

    Cara, na sua área eu só conheço o Huizinga, autor de Homo Ludens.

  12. Ricardo Peraça says:

    Muitos dos seus questionamentos são respondidos na segunda parte do artigo (e eu dou um exemplo bem parecido com o seu em relação à música, embora não fale de “mídias”).

  13. Léo says:

    Mais uma tentativa de agregar valor ao RPG.

    Com o determinado foco, sob o determinado aspecto, com o determinado argumento, QUALQUER coisa pode ser chamado de arte.
    mas não quer dizer que seja.

    a questão, a discussão é válida ou apenas gostaríamos de ter mais um adjetivo nos benefícios do RPG?

  14. Ricardo Peraça says:

    Descordo, Léo. Se você ler as outras duas partes deste artigo, a serem publicadas aqui no Paragons, saberá que não sou da opinião de que qualquer coisa possa ser cahamda de arte. Acredito, no entanto, que o RPG seja uma arte e não somente um jogo ou hobby. War, por exemplo, é um jogo e um hobby, e não uma arte. E acredito sim que devem haver discussões mais profundas e teoricamente acuradas sobre o RPG, seu estatuto artístico, suas características e técnicas, assim como acontece com a música, a pintura, a escultura, etc.

  15. Keldorl says:

    Já fiquei convencido, RPG é arte e uma categoria à parte.

    E isso me levou a pensar se Capoeira seria Arte, uma luta disfarçada de dança que conta suas histórias/faz desafios/manda recados/é regida atravez de música; um diálogo corporal que os praticantes consideram jogo e de regras mutáveis de arcodo com a situação. Poderia a Capoeira ser considerada portanto uma arte também? Seria ela uma arte a parte também?

    Acredito que sim para ambas as perguntas e pensando no tema apesar de eu ser leigo quanto a isso.

  16. Bruno Müller says:

    Os gregos não tinham o mesmo conceito de arte que temos atualmente. Era apenas um trabalho, uma habilidade manual exercida pelos artesãos (que, com o tempo, tornaram-se referências para o Ocidente, que passou a chamá-los artistas). Gregos tinham a ideia de tékhne/técnica, e as musas eram as entidades que regiam a retórica, a dança, a música e a poesia, também como ciências.

    RPG é um jogo. Por mais que a gente ame esse jogo, ele não é nada além disso. Não adianta querer ficar exaltando, dizendo isso e aquilo, porque não vai deixar de ser isso. Pombas, juntar amigos e contar histórias comendo pizza fria é arte? Isso que é desvalorizar as coisas.

    Quanto ao comentário do cochise:

    “O RPG é uma experiência do grupo não reproduzível. Lembra o conceito de performance que entrou em moda nos naos [sic] 70. [...]”

    Não.
    Se for assim, “experiência em grupo não reproduzível”, o jantar na casa da minha tia também é arte.

    Ainda assim, estou ansioso pelas próximas partes. =)

  17. Felipe Gonzalez says:

    O problema é que esse tipo de afirmação consegue aprovação instantânea não pela coerência dos argumentos, mas pelo desejo interno de valorizar o objeto. É claro que o RPGista médio vai ler o artigo e dizer “nossa, é claro que é arte” e até brigar com quem discordar. É um raciocínio de gueto, o RPGista já cansou de ver seu hobby difamado e mal-entendido, daí qualquer coisa que o valorize ser bem-vinda até demais.

    A questão é: não sei se pela necessidade de entendimento fácil, mas o artigo tem muitas falhas de argumentação, como a já observada “adição de X e Y às artes”. Por quem? Quando? Como? Esse tipo de afirmação parte de um pressuposto perigoso, parece até querer dizer que existe alguma autoridade ou órgão máximo das artes que “aprovou” a inclusão de videogame no balaio. Isso fora recorrer às “autoridades” citadas completamente en passant e fora de contexto, só como validação de fundo para argumentos pessoais.

    “Acredito, no entanto, que o RPG seja uma arte e não somente um jogo ou hobby. War, por exemplo, é um jogo e um hobby, e não uma arte.” Por quê? Qual é a diferença? Se eu colocar um chapéu e começar a interpretar um general, então jogar War será uma arte? Você tem conceitos pessoais internalizados a respeito do assunto e, aparentemente, não consegue externá-los direito com argumentos.
     
    Inclusive, sua justificativa no começo do artigo para incluir RPG em arte é que, ao longo da história, a arte já teve várias classificações; logo, seria “justo” que o RPG também fosse considerado assim. Então seria justo que o futebol também fosse, a capoeira (como disse o amigo lá embaixo), o jogo de dominó…
     
    Eu ainda tenho fé nas outras partes do artigo, mas isso está caindo rapidamente no relativismo de boteco, perigoso e, ao mesmo tempo, o alento dos que só querem um pouquinho de autoestima (como eu disse acima, os que precisam de uma validação do hobby).

  18. Ricardo Peraça says:

    Você deveria ter lido com mais atenção. Eu disse que esse artigo não provará que o RPG é arte a a partir do pontos de vista da convenção. “O objetivo deste artigo é, porém, fazer uma investigação filosófica a respeito do RPG enquanto arte”. E não me lembro se foi o Kubasik ou outra pessoa que disse que se em um jogo de xadrez, por exemplo, você começa a criar uma história e interpretá-la, fazendo escolhas pela história e não somente pelo jogo, o xadrez virou rpg. E pra mim RPG é arte porque, por exemplo, não há argumento suficiente para que o teatro seja arte e o rpg não. A princípio, se a interpretação dos roleplayers for tão grandiosa quanto a de atores, e melhor ainda, não há roteiro pré-definido, e melhor ainda, não há uma platéia passiva, porque isso não pode ser arte? Não acho que qualquer sessão de RPG é artística, isso seria dizer, por exemplo, que funk é música, e não é. É ruído. Mas RPG pode ser arte sim.

  19. Ricardo Peraça says:

    Eu citei o que cada musa regia, entre estas artes está a astronomia. Dizer que não eram só artes, mas ciências, é perverter o significado: arte hoje em dia também pode ser entendida como ofício, techné, enquanto o que entendemos hoje por ciência se encaixa mais na epistéme grega. Basta citar a astronomia e o leitor percebe que naquela época a concepção de arte era bem diferente.
     
    “com o tempo, tornaram-se referências para o Ocidente, que passou a chamá-los artistas”
     
    Cara, se quer falar em termos etimológicos, então seja um pouco mais históricamente preciso…

  20. Bruno Müller says:

    Não estou falando de etimologia. Estou falando de atribuição de significado. Não havia a mesma concepção de artista que há hoje. Simples. Não estou me preocupando muito em ser “historicamente preciso” porque o assunto não exige tanto esforço que me faça pegar um livro de história da Arte pra citá-lo aqui.

    Dizer que não eram só artes, mas ciências, é perverter o significado: arte hoje em dia também pode ser entendida como ofício [...]“

    Agora é você quem está pervertendo significado. Eu disse no contexto da antiguidade; você está trazendo para a contemporaneidade. Arte hoje em dia é ofício, é tekhné, mas também é arte pela arte, por fruição e valorização de significados individuais, o que não existia naquela época, em que era vista por um viés artesanal, por vezes decorativo e, na maioria dos casos, como efígie religiosa que as pessoas cercavam de veneração e fascínio.

    Enfim. Eu concordo com o que o Felipe disse ali embaixo. Lembrem-se: não levem as coisas tão a sério. São só miniaturas e papel.

  21. Emil says:

    “O objetivo deste artigo é, porém, fazer uma investigação filosófica a respeito do RPG enquanto arte”

    Mas ele falha até nisso, porque não consegue sair do juízo de valor. Além do que, a concepção de arte me parece um pouco ultrapassada também. Sem contar que as citações por cima e descontextualizadas dão a impressão — não que seja o caso, apenas possibilitam a leitura — de algo meio “ouvi falar / li de segunda mão; não entendi muito bem / não lembro direito” (exemplo: de que texto do Nietzsche você retirou que o filósofo renega a primeira parte de seu pensamento?)

    E, na seguinte citação, transparece toda a valoração que contamina o seu texto:

    “Não acho que qualquer sessão de RPG é artística, isso seria dizer, por exemplo, que funk é música, e não é.”

    Como funk não é música? Duvido mesmo que haja argumentos técnicos para respaldar esta afirmação; posso dizer que ela vem antes de tudo de um profundo preconceito. Por favor, tente explicar porque funk não é música.

  22. Ricardo Peraça says:

    Cara, eu já disse que faltam duas partes desse artigo? Nessa parte eu não provo nada filosoficamente! E o conceito de arte será explanado na segunda parte! E só na terceira eu falo da relação entre RPG e arte! Meu deus!

    No próprio prefácio de 1888 ao nascimento da tragédia se faz clara, nas palavras do próprio Nietzsche, uma negação das principais características de sua primeira fase (o wagnerianismo e o schopenhauerianismo). Por isso uso apenas a segunda e a terceira fases, pois usar a primeira não seria válido a não ser que se fizesse uma investigação muito profunda.

    E a definição de arte a qual chegarei é a mais contemporânea possível, ou seja, não redutivista, negativa, portanto não positiva e essencialista. Bem, vocês estão colocando o carro na frente dos bois. Esperem pelas próximas partes do artigo ou nossa discussão não terá significado algum…

    E eu acho sim que funk não seja música, no sentido de que ele não é arte, e música é arte. Se você acha que funk é arte, está se contradizendo. Tudo bem, chamamos de música tanto funk quanto mozart, mas por falta de um termo melhor e não por enquadrar os dois na mesma categoria. E se você acha que funk é arte e rpg não… me desculpe…

  23. Ricardo Peraça says:

    No artigo eu eu tento mostrar que a concepção de arte mudou muito e continua a mudar, mas meu objetivo não é uma prova convencional. Ponto.

    Se vocêr acha que são só miniaturas e papel… continue assim, você é quem sabe. Se você não quer levar o RPG a sério, ele continuará como ele está. Mas algumas pessoas querem levá-lo a sério e melhorá-lo, transformá-lo em algo mais interessante, significativo e profundo do que mover miniaturas e rolar dados na 4ª edição de D&D. Muitas pessoas que não conheciam o RPG e que conheceram por meu intermédio gostaram muito dele pelo seu potencial artístico, mas não veriam sentido ou interesse em jogar como você o faz. Se você se contenta, ótimo. Eu, e muitas outras pessoas, não.

  24. Bruno Müller says:

    Eu não ia nem replicar, mas…

    “Se vocêr [sic] acha que são só miniaturas e papel… continue assim, você é quem sabe. Se você não quer levar o RPG a sério, ele continuará como ele está.”

    Mas são miniaturas e papel, salvo jogos em que isso não existe. São usados para contar histórias com um grupo de amigos. Quantas dessas histórias terão a profundidade e inovação de uma obra de arte? É inegável que enredos memoráveis e tramas complexas podem ser criadas e apreciadas por anos a seguir mas, sei lá… só pelo grupo de jogo. Não passaria de onanismo mental em grupo, pra não dizer coisa pior. E ei, eu e meu grupo -temos- essas histórias, assim como imagino que o seu também tenha. É divertido, é gostoso de jogar, mas não passa disso. Tem coisa mais importante pra se preocupar.

    E querer “refinar” o RPG, elevá-lo ao estado de arte, é algo que (a) elitiza, superioriza o jogo como se fosse algo melhor e oh, epifânico, e afasta muita gente e (b) diminui o valor da Arte, aquela com A maiúsculo, já que cada vez mais surgem “artistas” com cada coisa…

    Muitas pessoas que não conheciam o RPG e que conheceram por meu intermédio gostaram muito dele pelo seu potencial artístico, mas não veriam sentido ou interesse em jogar como você o faz.”

    Não diga “jogar como você o faz”, como se a maneira que eu jogo fosse ruim comparado ao jeito com ~potencial artístico~ que você ensinou outras pessoas. Isso é pedante. Eu ainda não disse como eu jogo, então você não tem base pra comparar.

    Ainda assim, deixa pra lá. Melhor esperar pela continuação do artigo (tô curioso!) do que ficar batendo na mesma tecla aqui.

  25. Smaug says:

    Uau! Agora temos o RPG Arte!! Fantástico!! Junto com o Futebol Arte provavelmente, ou quem sabe as Artes Marciais… ei, pq Magic não pode ser uma arte tb? Ou War?? Sério, o que diferencia esses jogos do rpg eh a mesma coisa que diferencia esses jogos entre si… as regras, mas adivinhe só: vc pode mudar as regras mesmo desses jogos se elas não te agradarem ou não agradarem o pessoal que joga com vc! Eu jah joguei War com evangelions, e ai? War passa a ser arte? Quantas vezes vc jogou futebol com 22 jogadores, 1 juiz e 2 banderinhas seguindo todas as regras do esporte?
    Agora, vamos ao seu ” o rpg eh arte pq tem interpretação”, sério… de boa… mesmo? Quando eu jogo muchkin eu sou um aventureiro trapaceiro, bem como o restante dos jogadores, tah lah na caixa do jogo e no manualzinho. Eu toh ou não interpretando? Isso faz de muchkin arte tb?

  26. Ricardo Peraça says:

    Então você não joga Role Playing Game, mas wargame. Interpretação pra você é só isso? Interpretação pra mim é aquilo que fazem no teatro. E teatro é arte. Alguém, por favor me diga o que faz do teatro uma arte e do RPG – com interpretaçao DE VERDADE - não. Não estou dizendo, peloamordedeus, que todo RPG é arte, mas que RPG pode ser arte.

  27. Jack says:

    Adorei o artigo e ainda mais alguns comentarios e respostas.

    Mas o que seria do RPG sem um machado Vorpal neh xD*
    aeauehaiuehiuaehuiaehuaiehiauehaiueh

    Adoro cortar cabeças.

    Sem mais.
    (por enquanto)

  28. Lumine says:

    Teatro é uma expressão cultural baseada em tradições orais, comissionada de forma a contar histórias; enquanto que há uma semelhança bem rasa entre esse o conceito da interpretação de um rpg, é impossível de realizar uma comparação de tal magnitude.

    Um grupo de rpg que interpretar num palco para contar as histórias profundas dos seu vampiro amargurado não é RPG, é teatro de improviso.

    A sigla RPG consiste na união tanto do Roleplay com o Game; o mero conceito de um depende de outro na criação do jogo; pressupor que a interpretação tem é mais válida ou importante que a mecânica é ignorar justamente aqui que diferencia o hobby de uma mera sessão de freeform ou teatro improvisado.

    A utilização do termo wargame como derrogatório do postado acima sequer faz sentido: sem o wargame, você não teria o RPG hoje em dia da mesma forma que conhecemos e muito menos teríamos a grande influência que ele teve em cima das outras mídias.

    Entretanto, o valor artístico ao RPG acaba sendo equívoco pela falta real de argumentos concretos: não há causa ou correlação e a citação de filósofos cuja meta sequer se aproxima do proposto pelo artigo não passa, ao meu ver, de uma real tentativa ao meu ver de tentar agregar valor para justificar uma preferência pessoal, uma forma de “desmarginalizar” o hobby.

    No final, RPG é apenas um jogo. E está ótimo assim.

  29. cochise says:

    “Se for assim, “experiência em grupo não reproduzível”, o jantar na casa da minha tia também é arte.”
    O que quis dizer neste ponto é apenas que o RPG não pode ser analisado APENAS enquanto papel, mas também enquanto sessão de jogo. Que nenhum RPG pode ser definido como Arte por características inerentes a ele porque ele é um objeto inacabado que necessita da participação do público.
    E acredito que há grupos que fazem mais que comer pizza fria e se divertir. O meu por exemplo.

  30. cochise says:

    “É inegável que enredos memoráveis e tramas complexas podem ser criadas e apreciadas por anos a seguir mas, sei lá… só pelo grupo de jogo. Não passaria de onanismo mental em grupo, pra não dizer coisa pior. E ei, eu e meu grupo -temos- essas histórias, assim como imagino que o seu também tenha. É divertido, é gostoso de jogar, mas não passa disso. Tem coisa mais importante pra se preocupar.”
    Só por ser privado não é arte? A arte tem a ver com a exposição da obra ou com a coisa em si?

  31. cochise says:

    Música é composta de dois elementos, melodia e ritmo. O funk nãoi tem melodia, apenas rittmo, portanto não é música.
    Argumento técnico que ouvvi de um instrumentista clássico.

  32. Ricardo Peraça says:

    Só acho, falando simplesmente, que RPG sem o roleplay é wargame. E o roleplay, mesmo junto com o game, pode chegar a um nível semelhante ao do teatro. Um istema meu, o diferencial, por exemplo, tem regras para usar gestos no lugar de falas sobre regras para que o roleplay não seja invadido pelas regras. Mas aindá há regras e o jogo continua lá. Misturar as coisas gera algo novo, diferente de um simples jogo e do teatro, mas que nem por isso deixa de ser artístico.

    E você também esqueceu que há outras partes do artigo. A segunda já está publicada.

  33. cochise says:

    Sabe… sem nenhuma filosofia eu defino arte como o gesto de colher a maçã no paraíso. O gesto motivado pela ausência, carregado de significado, a arte é o salto sobre o abismo, qualquer abismo.
    Por isso para mim 90% das peças de teatro encenadas no Brasil não são arte.
    E defendo, o RPG é uma mídia, como o teatro e qualquer mídia pode ser usada para fazer arte.

  34. Bruno Müller says:

    Arte tem a ver com reconhecimento de algum meio externo, eu acho. Não pra justificar, nem pra enaltecer, mas de um outro ponto de vista que possa falar alguma coisa sobre aquilo. É aí que entra o “onanismo mental em grupo”, como eu falei.

    Analogia simplória: eu posso juntar um grupo de amigos em volta de uma cadeira e começar a dizer que aquilo é uma mesa. Todos desse grupo vão concordar, e pra nós, aquilo vai ser uma mesa.

    Outras pessoas vão achar que a gente é um bando da maluco.

  35. Bruno Müller says:

    Eu não devia ter usado sarcasmo. Causa mal entendidos.

    O que eu quis dizer é: não basta usar um elemento em comum com a arte para dizer que aquilo é arte. Com isso eu posso fazer um non sequitur de qualquer coisa.

    Árvores são a matéria prima pra fazer papel.
    Livros são feitos de papel.
    RPG tem livros, logo, árvores são RPG?

  36. Felipe Gonzalez says:

    “Você deveria ter lido com mais atenção.”

    Da mesma forma que você ignorou tudo que eu disse para jogar um “ad hominem” desses? Parabéns, então.

    ” E pra mim RPG é arte porque, por exemplo, não há argumento suficiente para que o teatro seja arte e o rpg não.”

    É como dizer que Deus existe só porque não há argumentos que provem que ele não existe. É um erro de lógica. Aliás, a sua análise, se parte apenas sendo uma “investigação filosófica”, falha em não levar em conta uma análise do ponto de vista cênico e, principalmente, literário (ponto que tem muito mais a ver com RPG do que uma análise filosófica).

    “Não acho que qualquer sessão de RPG é artística, isso seria dizer, por exemplo, que funk é música, e não é. É ruído. Mas RPG pode ser arte sim.”

    Aí é preconceito seu. Essa discussão toda se baseia em preconceitos. Você não seria capaz de argumentar, embasado em teoria musical, as razões disso? Isso está caindo em “é arte porque eu digo que sim e ninguém pode provar o contrário”.

  37. Felipe Gonzalez says:

    “A princípio, se a interpretação dos roleplayers for tão grandiosa quanto a de atores, e melhor ainda, não há roteiro pré-definido, e melhor ainda, não há uma platéia passiva, porque isso não pode ser arte?”

    E roteiro definido então diminui o caráter artístico de alguma coisa? Uma platéia passiva diminui o caráter artístico da peça? Esse tipo de definição é calcada em preconceitos a respeito do que seja teatro. Como eu disse antes, RPG se aproximaria mais de literatura do que de artes cênicas em uma análise como essa (como o cinema, que tem mais elementos literários do que necessariamente teatrais).

    Aliás, desculpe a divisão em partes aqui.

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