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Era uma vez no Acampamento D&D…

Hoje em dia, com internet e velocidade de informação, a facilidade para encontrar e ter pessoas para jogar seus RPGs favoritos, como D&D, é maior. Mas, no início dos anos 80, a coisa era um pouco diferente. Então, em um verão, um pessoal de uma universidade americana teve uma ideia..

Uma foto vale mais que mil palavras, por isso, deem uma olhada nessa foto.

shippensburg82
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Ela foi tirada em 1982 no Acampamento de Verão Dungeons & Dragons do Shippensburg College. Sim, você leu direito, um acampamento de verão feito por uma faculdade para o D&D. Eu vi essa foto em um tópico na Story Games e pedi para Ben Robbins a permissão de postar a foto, junto com uma entrevista que fiz com ele sobre o acampamento. O que vem à seguir são detalhes sobre o acampamento, como ele funcionava, e algumas experiências que Ben teve. Deixarei Ben contar essa história com suas próprias palavras.

“O Acampamento de Jogos de Aventura Shippensburg funcionou nos verões de 1981 até 1985. Havia duas sessões de uma semana, a cada noite de domingo até sexta a tarde. Eu o descobri porque o professor que tinhamos convencido a patrocinar o grupo escolar de D&D conseguiu um panfleto quando o acampamento foi organizado pela primeira vez.”

“Os campistas eram divididos em diferentes grupos de jogo no começo de cada semana, com os conselheiros agindo como Mestres. Havia palestras pela manhã (sério) e jogos à tarde. Todos os grupos jogavam a mesma aventura, escrita especificamente para o acampamento. Não era realmente um torneio, mas cada grupo tentava muito chegar o mais longe possível antes do fim da semana – um processo bem forçado, como descobri depois de me tornar um conselheiro.”

“Os mesmos campistas podiam se inscrever para das duas semanas, mas, obviamente, essa não era a intenção porque eles estariam jogando a mesma aventura duas vezes.”

“Havia muitos outros acampamentos acontecendo no campus da Shippensburg ao mesmo tempo: beisebol, tênis, líderes de torcida, etc. Todo mundo ficava nos dormitórios, com prédios diferentes para grupos diferentes, mas as palestras e jogos da tarde eram nos outros prédios do campus.”

Qual faixa etária estava envolvida? (tanto para jogadores quanto para conselheiros)?

“Oficialmente, era entre 10 e 17 anos, mas eu acho que a maioria tinha entre 13 e 14. Os conselheiros eram mais velhos em média, alguns no início da faculdade.”

Quantos participantes fizeram parte do Acampamento D&D? Qual foi o total para todos os acampamentos de verão?

“Cerca de 450 campistas no total. No primeiro ano, houve apenas uma semana, mas ela foi popular o bastante para ser dividida em duas sessões separadas de uma semana nos anos seguintes. Foram nove semanas no total, contando com 50 campistas por semana. Seria preciso tirar os campistas que regressaram para saber quantos indivíduos compareceram – provavelmente metade desse valor.”

Você mencionou assistir palestras de manhã. Sobre o que eram as palestras?

“Nada além de jogos. Como ser um bom jogador e um bom Mestre. Eu lembro que havia mais ênfase nos conceitos de jogo, não em regras específicas.”

Uau, não era o que eu esperava ouvir. Palestras sobre RPG?

“Uma das melhores seções (que voltava a cada ano por exigência do público) era a das sugestões da plateia sobre como melhorar a interpretação. Todos os conselheiros agiam como jogadores e a plateia criava as situações e os personagens para eles interpretarem. Não havia luta ou regras – se a situação começava a se transformar em um combate, eles paravam e partiam para uma nova. Pode parecer nada impressionante agora, mas demonstrar a interpretação como um jogo em si foi um exemplo poderoso nos anos 80.”

O que é realmente impressionante, não apenas do ponto de ensinar interpretação como um hobby, mas também encorajar os participantes a usar sua imaginação e criatividade para melhorar. Isso é algo que muitos jogadores, mesmo adultos, não são tão bons.

O acampamento era oficialmente realizado e administrado pela universidade ou era realizado, digamos, pelo clube de jogos e apenas acontecia em suas dependências? Parece ser a primeira opção, já que vocês ficavam nos dormitórios.

“Era um dos muitos campos realizados pela universidade. Havia um diretor acadêmico, Dr. Kraus, que realizava acampamentos diferentes em todos os Verões, mas não tinha nada a ver com jogos. A alma e o coração por trás do acampamento de jogos eram James Forest e Larry Whitsel. Eles realmente dirigiam o acampamento, davam a maioria das palestras, escreviam as aventuras. Onde eles estão agora? Não faço ideia.”

Os vários grupos dos acampamentos se misturavam a noite ou eram como “vocês são jogadores, nós somos líderes de torcida…”?

“Não posso falar por cada um dos campistas, mas em uma palavra: não. Todos os estereótipos comuns da idade estavam em ação: jogadores babavam pelas líderes de torcida e eram caçados pelos jogadores de beisebol. As líderes de torcida ficavam no dormitório ao lado e literalmente praticavam no nosso jardim. Todas as manhãs, eu ficava curioso para saber se um administrador inteligente colocou intencionalmente as líderes de torcida ao lado dos jogadores relativamente seguros (diferente dos jogadores de beisebol), mas isso é apenas especulação.”

“Para ser justo, os jogadores estavam muito ocupados apenas se conhecendo – você é colocado em um dormitório com mais jogadores do que você já viu em sua vida inteira. Existe muito para se falar. Mal tinha tempo para conhecer as pessoas no seu próprio acampamento antes da semana terminar.”

Era o que eu imaginava. Nos anos 80, ser um “jogador de D&D” não era fácil. Hoje em dia, com o surgimento de jogos online como World of Warcraft, é bem mais aceitável, apesar de eu ainda encontrar várias crianças nas escolas onde leciono que fazem uma distinção ‘muito’ clara entre jogar WoW e jogar D&D. Existia algum suporte oficial?

“A TSR definitivamente sabia sobre o acampamento, já que Frank Mentzer veio como palestrante convidado no primeiro ano.”

Frank Mentzer foi um palestrante convidado? Isso é algo que eu não esperava. Qual versão do D&D vocês estavam usando?

“O AD&D era o único. O Moldvay Basic já existia, mas ele era considerado D&D infantil e desprezado (porque eramos estúpidos naquela época). Depois de horas, todos os conselheiros jogavam Champions, pois era um jogo novo e legal.”

Que tipo de aventuras? Somente rastejar em masmorras ou algo mais elaborado?

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“O primeiro ano tinha uma masmorra com cinco níveis tão velha guarda (old school) que era pré-histórica. O tipo de masmorra onde cada quadrado do papel tinha uma sala ou corredores, até as bordas da página. Um grande retângulo da perdição (O mapa ao lado é um dos mapas de um dos níveis).

“À medida que os anos se passavam, o estilo das aventuras refletia a evolução do hobby: depois da primeira masmorra (”Dancarinos dos Mortos”) veio a clássica aventura “explore-cada-hexágono-de-área-selvagem” (”Invasores do Covil do Bandido”), então uma masmorra elaborada com uma introdução ao ar livre e enigmas visuais (”A Maldição do Templo de Set”), depois um plano de intriga na cidade com PdMs realmente tomando a iniciativa (”A Luta pelo Trono de Glitham”) e finalmente uma missão que envolvia o mundo todo (”Odisseia dos Anéis”). Eu era um jogador nas três primeiras e Mestre nas duas últimas.”

“No fim, havia planos de expandir o acampamento para incluir outros RPGs (começando com Champions), mas o acampamento foi cancelado antes que isso pudesse acontecer.”

Na sua história original, você menciona que os jogos eram “levemente forçados”. Pode falar sobre isso?

“Através da semana, os conselheiros-Mestres tinham reuniões para comparar anotações sobre a aventura, discutir quais pontos deveriam ser fáceis ou difíceis, etc. Se alguns grupos específicos estavam ficando para trás, sem chance para terminar a aventura até o fim da semana, nós criávamos atalhos ou pelo menos dávamos a chance de chegar ao clímax – mesmo que aquela luta acabasse com eles. Eu terminei pelo menos uma semana com um grupo quase totalmente morto. Assim, não era uma vitória gratuita, mas pelo menos você tinha sua chance mesmo que tivesse ficado para trás.”

“Os jogadores também eram agrupados pela idade, assim, apesar de todo mundo passar pela mesma aventura, eu diria que havia uma tendência natural de pegar leve com os mais jovens e pesado com os mais velhos – realmente forçá-los a jogar melhor.”

“Equilibrar tudo isso era função de um Mestre “especialista” flutuante, um Mestre que não tinha um grupo mas que fazia um encontro específico para cada um dos grupos em momentos diferentes. No primeiro ano, foi a temida armadilha “tabuleiro de xadrez”; no último ano, foi o navio pirata fantasma errante. O Mestre convidado intencionalmente fazia que tais encontros fossem brutais, daqueles que colcam todos os grupos na mesma experiência, nao importa como era o Mestre normal. Um tipo de teste padrão para jogadores.”

Então, havia muito planejamento acontecendo nos bastidores e coordenação de grupos diferentes – isso é muito mais organizado do que eu esperava.

“Outro motivo das reuniões dos Mestre era planejar como deixar a aventura diferente. Compartilhar informações entre grupos diferentes era um problema potencial (”quando você entra na sala do trono, jogue flechas nos olhos ocultos na parede e você cegará o ilusionista antes que ele possa conjurar uma magia!”), então nos colocávamos pequenas diferenças para enganar os estraga-prazeres. (Sim, eu estava em um grupo com um jogador que espontaneamente correu em direção à parede e atirou flechas nos pequenos buracos ocultos. Bem sutil, garoto.)”

Isso foi engraçado. Você consegue se lembrar de cenas, aventuras, ou eventos memoráveis específicos da época que você passou la?

“Bem, algumas. Grupos de jogadores jovens entulhados no mesmo dormitório? A história se escreve sozinha.”

“- A infame briga “Rebeldes vs Império” que envolveu o dormitório inteiro, o que eu chamaria hoje em dia de live action espontâneo com efeitos colaterais extendidos.”

“- Frank Mentzer oferecendo para mestrar a versão prelançamento do Templo do Mal Elemental (Temple of Elemental Evil) para mim e um bom amigo meu, que tolamente dispensamos (repito, éramos estúpidos naquela época).”

“- Surpreender o Mestre usando magias “Encontrar o Caminho” para triangular a localização do covil secreto dos bandidos – nada mal para jovens com 13 anos, e uma prova de que a geometria possui aplicação no mundo real (fiquem na escola!).”

“- Mestrar uma mini-campanha de Champions durante uma semana para os outros conselheiros. Não foi meu melhor jogo de todos os tempos, mas os jogadores realmente o tornaram ótimo.”

“- Jogar com o primeiro Sistema Universal de Jogos de Interpretação (Universal Role-Playing System, ou URPS – isso foi antes do GURPS ser lançado) e fazer todos os jogadores marcharem até a biblioteca da faculdade para procurar mapas do Peru para que pudéssemos imaginar onde iríamos no jogo (repita comigo: pré-Internet).”

“- A última seção que Mestrei da “Odisséia dos Anéis”. Os jogadores roubaram o anel final da ilha dos druidas, mas foram pegos antes que pudessem voltar para o navio. Eles estavam correndo, mas caiam como moscas, até o último sobrevivente chegar na praia, lutando para entrar no barco. ZAP, o grande druida o atinge com um Dedo da Morte e ele cai morto no chão. Mas ele estava usando um dos primeiros anéis artefatos que encontraram, que tinha a semi-cruel propriedade de reviver o personagem automaticamente, mas drenando um nível, como eles descobriram. Então o guerreiro inesperadamente cambaleia, corre mais alguns metros e ZAP, o druida o atinge com outro Dedo da Morte. Ele cai morto de novo, mas se levanta e segue em frente. Parece ser trágico e malvado, mas os outros jogadores estavam de pé gritando, na animação de que o personagem poderia fugir contra todas as expectativas e terminar a missão, mesmo que ele fosse o único sobrevivente. Que ele conseguiu e assim ele foi, com vários níveis a menos. Você pode achar que eles ficariam tristes, mas eles estavam bem animados com o final dramático.”

Minha nossa, você desperdiçou a chance de jogar TdME com o escritor? É, crianças podem ser estúpidas. A “Odisséia dos Anéis” é uma daquelas histórias clássicas “lembra quando…”

“Havia muito jogo, mas realmente havia mais diversão fora do jogo, como marchar com todo o acampamento até a cidade para ver Fúria de Titãs no cinema. Simplesmente estar com crianças que pensam como você e conhecê-las foi maravilhoso. Pegue a magia de um acampamento de verão normal e amplie algumas vezes para compartilhar essa subcultura rara e incompreendida.”

Porque o acampamento terminou?

“Nunca foi explicado. A carta de cancelamento do Dr. Kraus dizia que ‘Por vários motivos, a Universidade decidiu não continuar com o Acampamento de Jogos de Aventura’, mas depois adicionou que ‘acredito que, ao contrário do que a mídia recente teme, nossos campistas se tornarão alunos célebres e futuros líderes.’. O que fazia pensar na paranóia de que o ‘D&D vai fazer você se esconder nos esgotos/adorar Satã’”

“Mas, na última semana do acampamento, houve um furor porque o Dr. Kraus foi entrevistado por um repórter local, e ele baixou sua guarda e foi citado por dizer que “basicamente, essas crianças são fracotes.” Opa. Lembre-se que ele não era um jogador, apenas o facilitador da universidade. Ele costumava dirigir acampamentos de esportes, como tênis ou natação. A história foi impressa enquanto o acampamento ainda estava acontecendo, os campistas falaram sobre isso, tochas e forcados foram levantados e ele terminou se desculpando com o acampamento reunido, enquanto os jogadores raivosos o vaiavam. Não foi nada bonito.”

“Tendo isso em mente, não consigo evitar em pensar que ele simplesmente não estava mais interessando em facilitar (e ser o inimigo público número 1 em seu próprio acampamento) e acabou com ele. A carta de cancelamento chegou em novembro de 1985, não muito depois dessa confusão embaraçosa.”

Foi um final muito triste para o que provavelmente foi um grande momento para todos que participaram. Contudo, parece que você guardou muitas memórias e experiências, que provavelmente é a parte mais importante. Se pelo menos você tivesse jogador TdME… Obrigado pela entrevista e pela grande história.

Texto de MJ Harnish, tirado de http://rpg.brouhaha.us/?p=925.

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7 Comentários

11.07.09

Caraca!!! Deve ter sido muita doideira!
Dan Ramos postou o seguinte… Era uma vez no Acampamento D&D…

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Muito legal o acampamento! O curioso é que o único AD&D que tinha na época era a 1ª edição, a segunda só saiu em 1989.

O final foi bem triste, aqui teve algo mais simples nos primeiros EIRPGs (ou RPG Sampa) na qual o pessoal dormia no local do evento!
Daniel “Talude” Paes Cuter postou o seguinte… Duas notas rápidas e alguns links aos amigos

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Legal legal !!!

Muito massa, doidimais (desculpa pelo plagio)

Tinhamos que fazer um desse aqui no Brasil
iria ser muito bom, principalmente para os
principiantes como eu.

Mas é sério temos que tentar fazer um desse
para o final do ano, sei que sou meio velhinho
para acampamento, mas seria muito dez.
Nícolas Ferreira da Silva postou o seguinte… How can I check a website’s traffic figures for free?

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11.07.09

Doidodimais.Isso é mais que old school,é quase pré histórico(pré internet é,com certeza).
Quem diria,rolou até GURPS,ops,URPS.
Max Silva postou o seguinte… Comercial para DungeonQuest

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Uma correção, era na Gencon que o pessoal tirava uma soneca durante os entremeios do evento.
Daniel “Talude” Paes Cuter postou o seguinte… 35 anos de Dungeons & Dragons (1/4) – Origem

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11.07.09

De vez em quando eu saio de férias com alguns amigos e agente joga RPG quando sobra um tempo, dificilmente a nossa mesa rende tanto assim, mas é bastante divertido. Agora eu imagino 500 nerds dentro de um dormitório jogando RPG que nem uns loucos durante uma semana inteira! Isso éalgo que eu pagaria pra fazer!
Aliás, uma coisa que eu queria ver era essa história do Rebeldes vs Império. Deve ter sido cômico/trágico.
Xiorus postou o seguinte… 50 plots que você ja deveria conhecer.

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11.07.09

Quando eu falo que é jogo de maluco….
Thor postou o seguinte… Dungeons and Dragons Rap – Kaitlyn Bridge

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